O Velho Chico levou o Santo dos Anjos

Ê meu velho Chico…

Sua beleza sempre me encanta. Nos passeios, nas fotos, na memória, na trama. Impossível não se entregar à sua imensidão e não me sentir tão humana e pequena diante de ti. Uma única gota d’ àgua sua tem mais força do que eu quando paro pra admirar essa velocidade quase ensaiada, essas cores que parecem mudar num balé mágico e a incrível beleza dos rochedos que te margeiam, como muros que guardam sua magnitude.

Você nasceu de um amor. E quem nasce de um amor, não morre jamais. Suas águas são as dores de uma saudade, as dores de quem amou e esperou, e chorou. É assim que a história da índia Iati nos conta sobre aquela saudade que doi, sufoca, enlouquece. O amor também doi, desnorteia, mas é uma dor que preenche, que salva, que afaga. O amor a gente até tenta entender, mas a morte não. A dor da morte a gente não consegue explicar, nem sabe como fazê-la sumir, arrancar aqui de dentro. Bem que você poderia levar essa dor pra bem longe, carregando em sua correnteza com a maior velocidade que conseguisse. Leva, vai. Pra lá, pra bem longe, sem deixar que ela volte.

Guerreiro valente do amor

Olhando pra você não consigo sentir remorso. Mas não dá pra entender que tudo mudou num de repente, que quem aqui estava a nos fazer sorrir, e que na arte vivia um guerreiro valente do amor, que na trama por uma coincidência até meio estranha, havia sumido em suas águas, mas que ganhou uma segunda chance de viver, de repente se foi. Na estória ele reviveu. Mas parece que você quis mudar o destino. E quem é o roteirista dessa notícia que abalou o povo que amava Santo dos Anjos e seu amor por Teresa? Que mexeu com o coração de um país que tinha pelo ator uma empatia que não precisa ser explicada, apenas respeitada. Como respeito você e seus desejos. Não temos o direito de questionar os desígnios do Grande Escritor, nem os seus, meu Velho Chico. Mas me deixa chorar a dor do susto, porque sou pequena pra entender a morte ainda.

Você se encantou por ele. E o levou pra longe de nós. Você o chamou. Mas somos humanos demais pra compreender tudo isso. Essa mistura irônica entre arte e vida real, essa simbiose entre o homem e o personagem. O que sentimos agora é apenas a dor da saudade, o mesmo sentimento que fez brotar você. Essa tal de saudade, dor implacável, indomável. Saudade de um sorriso, de uma paz que emanava do olhar, do bom moço, da simplicidade do circo, do ator, do pai e marido, amigo, e mais uma centena de saudades que são impossíveis de se explicar, mas que cabem direitinho em sua grandiosidade. Talvez vocês sejam do mesmo tamanho: você e a nossa saudade.

A morte não é um mistério. Misteriosa é a história que a vida nos escreve e faz viver.

Cada um entende a morte do seu jeito, mas acho que a dor chega a todos os corações sem piedade, sem cerimônia. Ela chega sufocante, acelerando os batimentos, causando uma raiva repentina, uma indignação, deixando a a respiração curta e desatinando o juízo. Remédio pra esses sintomas só conheço um, forte como você , chamado TEMPO.

A morte é o final da vida aos nossos olhos. Mas a saudade é a vida eterna.

Vá em paz Domingos Montagner. Você continuará em nossas vidas como o Cabo Moacir, o Carlos Alencar, o Capitão Herculano, o Paulo Ventura, o Zyah, o Coronel Raimundo, o Raimundo Fonseca, o Miguel e o Santo dos Anjos e vários outros personagens.
Meu Velho Chico

Meu Velho Chico

Canindé de São Francisco/SE

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