Eu nunca quis ser Pãe

Não, eu nunca quis ser Pãe!

Por muitos anos foi difícil compreender que nem todo pai é igual ao meu. Mas com o meu amadurecimento como mãe, fui aprendendo que não posso exigir isso de ninguém. E também fui me lembrando que todos nós somos uma mistura de qualidades e defeitos. E que cada um de nós carrega sua bagagem de dificuldades, de medos, e que apenas a estrada da vida vai nos ensinando o que é prioridade e o que é descartável.

Sim, eu briguei. Tive raiva. Quis ser a substituta nos momentos de ausência, por esquecimento, negligência ou pela distância. Tentei assumir o controle de tudo. Fui o colo na espera incansável na janela da casa esperando a visita, fui quem recebeu cartão na escola, o beijo no domingo, as madrugadas acordada, a motorista pra escola, o remédio na doença, a companhia de todos os percalços. A sombra. A força. O choro e a alegria. Mas um dia percebi que estava ocupando dois lugares. Um era meu, e ninguém vai me tomar. Mas o outro, o outro não me cabe.

E foi quando me retirei daquele espaço.

Fui aos poucos me despindo de mágoas, de um pouco de competição também, mas fiz tudo isso achando que estava protegendo os dois. Cada um tem a sua história, assim como diversas famílias por aí. Não há aqui uma comparação nem disputa sobre sofrimento. As dores e as alegrias deles, são deles. Não vem ao caso a exposição, apenas a lição que eu aprendi nesses 16 anos em que sou mãe.

São dois, uma mulher e um homem. São duas gerações, dez anos de diferença entre eles. São dois pais diferentes, e uma mesma mãe. Mas nessa caminhada, a cada ano que se passou, fui deixando de ocupar esse lugar de Pãe, o qual eu nunca desejei pra mim, mas assumo que fui empurrada a viver. Mas hoje quero apenas ser a mãe deles. Apenas mãe, o que já é muita coisa.

A missão mais linda, misteriosa, corajosa e infinita que poderia viver.

Aos poucos fui me retirando do lugar errado. Hoje, no quarto de cada um tem a foto do pai, tem histórias engraçadas para dormir, tem as comparações como “nossa! Seu pai também fazia isso!”, “como você se parece com ele!”, tem as ligações espontâneas, envio mensagens com fotos e fatos do dia a dia dos meninos, tem a memória. Tem a presença de alguma forma.

Eu dei aos meus filhos a chance de amar seus pais. Porque a mim eles já amavam. Mas eu talvez não tenha percebido que, na tentativa de não fazê-los sofrer pela falta, estava sufocando os dois com o meu amor, negando a eles a oportunidade de amar seus pais. Com suas qualidades, defeitos, dificuldades, ausências, carências, e esquecimentos.

Mas deles é a vida!

Foi por eles que temos duas joias, dois anjos, dois seres lindos, e a cada dia mais incríveis. Eu não fiz sozinha. Posso até criar sozinha, mas eles estão aí, fazem parte da vida, da história, pra sempre. Estão nas semelhanças físicas, estão no gênio, no sobrenome, na família que carregarão em suas vidas eternamente. E sou grata aos dois por ser mãe.

Hoje não sou mais Pãe. E sei que depois que deixei cada um ser o pai que consegue ser, tudo mudou. E a cada dia vejo novas surpresas, novos sorrisos, novas sensações no rostinho deles. Não, a culpa pelas falhas não foi minha. Não fui eu que afastei ninguém, nem proibi nada. Eu apenas reagi, tentei criar um mundo onde não houvesse sofrimento, nem lágrimas para eles. Mas foi uma grande bobagem. Tudo que eles viverem, trará ensinamento e força.

E aí percebi que eles precisam encarar por eles mesmos a vida. E eu estarei sempre aqui, do ladinho, pra conversar, pra abraçar, pra sorrir com eles. Cada um está descobrindo como viver do seu jeitinho, e eles estão construindo suas relações com seus pais, sem a minha interferência, o que eu faço é apenas lembrá-los de que eles são metade mãe e metade pai. Não tem ninguém maior que ninguém, nem mais bonito, nem mais importante.

Eles são nossas misturas.

E assim, respeitando a maneira de cada um ser pai, que entendi que ser mãe não é cobrar deles que sejam o pai que eu esperava que eles fossem para meus filhos. Mas agradecer por eles serem pais, por nossos filhos existirem e por terem me tornado mãe. A gratidão me libertou. E esse meu amor de mãe, acima das mágoas das relações, bem acima do orgulho e da vaidade, libertou meus filhos. Eles não precisam amar só a mim. O amor pelo pai deles os completou.

Parabéns ao Eduardo, pai da Gabriela e ao Mendel, pai do Mauro.

E Feliz Dia dos Pais aos pais e padastros que amam seus filhos, à sua maneira, mas sei que amam de verdade.

Feliz Dia dos Pais

Feliz Dia dos Pais

Mauro disse que hoje é Dia dos pais (pais = pai + mãe). E sim, eu ganhei presente.

 

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3 comentários sobre “Eu nunca quis ser Pãe

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